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Artigo de dom walmor

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Inteligência e ética

Inteligência artificial deve ser entendida como uma “galáxia de realidades diversas”, explica o Papa Francisco, em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz. Não se pode presumir que o seu desenvolvimento seja benéfico para o futuro da humanidade. O avanço tecnológico requer um rico e inspirador horizonte ético para, ao invés de se comprometer a paz, efetivamente promovê-la, garanti-la. O entusiasmo com o desenvolvimento das muitas formas de inteligência artificial não pode dispensar a necessária reflexão ética, imprescindível quando se busca garantir respeito aos valores humanos fundamentais.  Não se pode admitir avanços tecnológicos que simplesmente comprometam valores humanos essenciais: privacidade, inclusão, transparência, segurança, equidade e respeito. Reconheça-se que o desenvolvimento da tecnologia vem sempre acompanhado da responsabilidade pelas consequências desse progresso.

A lucratividade e o fascínio gerados pela expansão tecnológica não podem justificar irresponsabilidades pela admissão de quaisquer propósitos que afrontem valores humanos. Adverte o Papa Francisco que avanços técnico-científicos, quando não são acompanhados do necessário respeito aos valores humanos, representam risco concreto à liberdade e à convivência pacífica. Esse risco se efetiva quando se cede à tentação do egoísmo, do interesse próprio, da ânsia pelo poder e lucro. Recomenda o Sumo Pontífice que as pesquisas relacionadas ao campo técnico-científico sejam sempre orientadas para a promoção da paz e do bem comum. O respeito aos valores éticos não significa, definitivamente, uma resistência aos avanços tecnológicos e científicos.  Trata-se de um compromisso com todos que fazem parte da humanidade, com pessoas de diferentes gerações, cultivando o bem e a paz.

Recomenda-se, assim, como “cláusula pétrea”, priorizar a fraternidade e a dignidade que é intrínseca a cada pessoa, configurando um horizonte iluminador para o desenvolvimento tecnológico e científico. Desse modo, o progresso digital será norteado pelo compromisso com a melhoria da qualidade de vida da humanidade. Poderá ser alavanca para a superação das vergonhosas desigualdades sociais – indiscutível fonte de sérios conflitos que comprometem a paz. Em síntese, os avanços digitais devem alavancar um desenvolvimento integral e inclusivo, sob pena de serem antiéticos, buscando beneficiar somente uma pequena parte privilegiada da humanidade. Constata-se, pois, que a dimensão ética ganha ainda mais pertinência quando se considera que a inteligência artificial se tornará cada vez mais presente na vida da sociedade. Essa crescente presença não pode levar à expansão das exclusões ou estar a serviço de manipulações perversas, interesseiras.

O Papa Francisco lembra que o desenvolvimento não pode se restringir à esfera técnica, pois o progresso tecnológico, para ser benéfico, precisa ser acompanhado de necessários avanços antropológicos, educacionais, sociais e políticos. Não se pode pensar no progresso científico e da técnica simplesmente por diletantismo, agindo a partir do fascínio que as novidades tecnológicas promovem. Nem se deixar dominar pelos interesses lucrativos, pela sede de poder. Não se trata de oposição ou medo diante dos avanços, mas cuidar para que as rápidas evoluções tecnológicas sejam acompanhadas de esforços para a salvaguarda dos direitos humanos fundamentais. Nessa direção, o Papa Francisco sublinha que a inteligência artificial deve contribuir para desenvolvimento das potencialidades e das mais nobres aspirações do ser humano – jamais estabelecer relação de competição com as pessoas.

Há de se considerar a efetiva transformação da humanidade que está em curso a partir do progresso científico-tecnológico, que promove significativas influências culturais. Essas mudanças culturais não podem representar o enfraquecimento de valores éticos. Sem esses valores, a humanidade pode sofrer ainda mais.  Comportamentos sociais influenciados somente pela tecnologia, carentes da iluminação de valores éticos – exclusivamente presentes na mente humana -, podem levar a catástrofes humanitárias, comprometendo a paz. A “máquina”, no seu encanto inteligente, não poderá jamais substituir o ser humano. Deve estar a seu efetivo serviço, sob a regência ética dos senhores e das senhoras da Criação: homens e mulheres criados à imagem e semelhança de seu Deus Amor. Diante do ser humano está o desafio de modelar a tecnologia do futuro com intocáveis valores éticos, para que os avanços técnico-científicos contribuam efetivamente com o desenvolvimento humano integral, com a promoção e a manutenção da paz.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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