Santuário Arquidiocesano

Catedral Cristo Rei

08h
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10h30
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15h30
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Sábado - Terço da Paz

15h

Domingo - Terço da Misericórdia

15h

Artigo de dom walmor

Conformar-se a Cristo

A Quaresma, celebrada pelos cristãos em preparação para a Páscoa, é caminho com muitos itinerários que ganham sentido a partir de um horizonte: o desafio espiritual de qualificar o ser humano, chamado a conformar-se a Cristo. Isto é, conquistar as mesmas feições e atitudes do Redentor da humanidade. O ser humano precisa interessar-se por esse desafio que é capaz de dar alento e sabedoria ao coração, permitindo-o alcançar respostas capazes de dar rumo novo à vida.  A busca por conformar-se a Cristo não pode se restringir às experiências vividas no seguimento de influencers, no cultivo de ídolos das artes ou dos esportes. Conformar-se a Cristo é a oportunidade de prover-se de uma fonte inesgotável de sentido para viver, de coragem para lutar por um mundo melhor e, assim, qualificar-se pela conquista de um tecido humano e espiritual da mais alta qualidade. Os caminhos para conformar-se a Cristo são muitos, de vários tons. O próprio sofrimento pode ser um ponto de partida.

Todo ser humano é visitado por situações de sofrimento, mas a dor, em si, não é capaz de fazer com que uma pessoa se torne boa. Já a experiência do sofrimento iluminada pelo sofrimento de Cristo, na sua paixão e morte, oferta de si na cruz, torna o ser humano melhor, possibilitando-o a compreender melhor a própria dor. À luz da oferta de Cristo na Cruz, o ser humano deve ofertar a si mesmo, para alcançar a redenção que todos precisam. E um ser humano comprovadamente qualificado, conformado à Cristo, tem a competência de não perseguir, mesmo se sofrer com perseguições, não ultrajar, mesmo se ultrajado, não caluniar, ainda que for vítima de calúnias. Um ser humano que se faz amigo de todos, movido sempre por misericórdia. Aqueles que vivem a própria dor à luz da oferta de Cristo aprendem a esperar sempre em Deus, particularmente nas circunstâncias difíceis.

Ensina o beato Columba Marmion que, esperar em Deus, repousar no seu seio, quando tudo corre bem, não é de grande virtude: o ser humano, apesar das dificuldades vividas, deve estar sempre convencido de que Deus jamais o abandonará, auxiliando-o a encontrar saídas, com sua sabedoria, seu poder e seu amor. Vale lembrar também o Papa Francisco quando apontava a vivência da Quaresma como anseio pelo sopro de vida que o Pai de Jesus e de todos não cessa de oferecer à humanidade. Conformar-se com Cristo é aprender e admitir que Jesus se fez fraco e cansado pelo caminho, fazendo-se homem, sendo Deus, por causa de cada ser humano. Provoca Santo Agostinho com fortes interrogações: de fato, que caminho pode percorrer quem está em toda parte e nunca ausente de lugar nenhum? Tenha-se muito presente, impactando-se, que Cristo se dignou a vir, não somente assumindo a carne, mas também a condição de escravo. Assumir a carne é o caminho percorrido por Ele.

Santo Agostino lembra que Deus é o médico das almas, instituiu o tempo favorável, referindo-se à Quaresma. Um tempo suficiente aos justos para orar, e aos pecadores para suplicar; os primeiros pedem o repouso, os segundos pedem o perdão. A Quaresma é santa e salutar para conduzir o juiz à misericórdia, o pecador à penitência, o justo ao repouso. Portanto, um tempo para conformar-se a Cristo, despertando para o seu seguimento que inclui a prática da humildade para se chegar aonde ele chegou. Ele, Cristo, facilita a todos os seres humanos o percurso rumo à salvação.

Cristo é o caminho. Um caminho que deve ser trilhado com dois pés: a humildade e a caridade, conforme ensinam os santos. Para estes, a caridade atrai todos, mas a humildade é o primeiro degrau. Há de se começar sempre pela humildade. O conformar-se a Cristo faz de todo ser humano um viajante. Um viajante peregrino que deve ter na Palavra de Deus seu alimento diário, alimento da alma. Um pão que não deixa ressecar o coração, mas fortalece-o com sua substância rica e fecunda. O coração fica banhado da prece de um presbítero chamado Pedro Blois, que vale a pena recitar sempre e de coração: “Senhor, espero em ti! A tua sabedoria é infalível, teu poder invencível, tua bondade infatigável, teu amor sem fim.  Ainda que me veja flagelado ou em chamas, espancado ou morto, hei de esperar em ti, Senhor: contando que ajudes e me ensines a fazer a tua vontade; concede-me um sinal que me prove a verdade do teu amor para que te procure e em ti espere. És bom para quem confia em ti, para a alma que te procura. Tenho certeza que aqueles que te servem não são oprimidos, mas honrados, porque muito honrados são os teus amigos, ó Deus. (Sl 138,17). Vale a pena, é uma aposta exitosa e de ganhos perenes, esforçar-se, por algum caminho ou itinerário, para conformar-se a Cristo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte